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- Modelo Teórico dos Fatores do Rorschach(*)
* Artigo publicado na Revista da ALAR - Associação Latinoamericana de Rorschach, n° 6, Maio 2001, p. 49-56
Resumo:
Neste trabalho faremos uma breve exposição de nossas idéias sobre a natureza dos processos psíquicos ativados durante a realização da prova de Rorschach e a importância da utilização de um modelo teórico de personalidade.
Descritores: Prova de Rorschach, modelo teórico de personalidade.
I. Modelo de Personalidade
O modelo evolutivo e sistêmico da personalidade, proposto em 1996 por Anibal Silveira, integra funções psíquicas relacionadas aos processos emocionais, cognitivos e motores. Quanto ao modelo científico, representa os fenômenos psicológicos universais, ou seja, relativos a um sujeito epistêmico. O modo com que as variáveis estratégicas deste modelo se estruturam em sistemas dinâmicos, varia em cada indivíduo concreto, compondo a dinâmica da personalidade. Este modelo permite a análise dos diferentes níveis de processamento das experiências humanas e sua correlação com a atividade cerebral. Neste caso, nos interessa destacar: o nível de percepção, em que a imagem mental, de ordem sintética é mais próxima aos estímulos externos e corresponde à noção imediata da experiência; o nível de elaboração, em que ocorre uma redução da imagem perceptual em função da interação mais ativa da memória, do pensamento e da emoção, em função do modo peculiar com que o individuo sente, interpreta e organiza suas experiências; e o nível de categorização, no qual a imagem é fixada como sinal ou símbolo passível de comunicação.
Este processo contínuo, que se instala desde o início da existência individual, não se faz de modo linear e acumulativo. Nele intervêm feed-backs entre os diferentes níveis, possibilitando novas elaborações, articulações e inovações no modo de conceber do indivíduo e de reagir em sua experiência com a realidade.
No psiquismo, as experiências nunca são guardadas de modo mecânico e integral. Não existem “imagens na cabeça”. A organização individual das experiências é feita mediante representações flexíveis e dinâmicas dos afetos, emoções e ações. Os esquemas da memória, ainda que sujeitos a transformações contínuas, mantêm uma unidade, permanecendo disponíveis em nosso psiquismo e podendo ressurgir como vestígios da uma emoção vivida no passado ou como informações de referência para a elaboração de padrões sociais de conduta e para a criação autônoma de concepções e imagens originais.
Na vida cotidiana, como logo veremos, durante a prova de Rorschach, cada ato pessoal se encontra impregnado do saber e do sentir experimentados no passado, originados nas relações interpessoais e sempre dispostos a despertar e projetar-se no futuro. Estas experiências, que derivam da natureza social da existência humana e que se expressam de modo singular em cada indivíduo, se organizam como estrutura da personalidade. As representações psíquicas dessas experiências poderão ser evocadas intencionalmente pelo indivíduo para o julgamento e a decisão em situações atuais. Deste modo, o passado é constantemente reconstruído pelas experiências presentes e pelos projetos futuros por meio de registros por imagens icônicas, motoras, simbólicas, ou inclusive por sinais e proposições abstratas. Além disso, o componente emocional que acompanhou as diferentes experiências individuais pode ressurgir de modo repentino e involuntário, despertando o que há de mais autêntico e pessoal em nossas reações.
Mas, de que modo pode ser estudado mediante a prova de Rorschach este processo psíquico, em que a emoção, percepção, atenção, memória e simbolização são integrados na dinâmica de personalidade?
II. Os processos psíquicos e a prova de Rorschach
De que modo os “indícios” extraídos dos estímulos do Rorschach serão “lidos” pelo examinando, em função das representações mentais integradas em sua personalidade?
Diante das manchas do Rorschach, o indivíduo busca um significado, não unicamente devido às instruções da prova, se não também em função de uma tendência comum a todos os seres humanos, que se revela sempre que se confrontam com situações desconhecidas: o effort after meaning, segundo a expressão de Batlett. A necessidade de atribuir significado às experiências.
O fato inesperado, a situação ambígua ou nova, desperta afetivamente nosso interesse e mobiliza nossos recursos subjetivos, que passam a orientar e influenciar a constituição do nosso saber o qual, por sua vez, irá retroagir na dinâmica da personalidade.
As manchas de Rorschach propiciam esta experiência: representam situações ambíguas, mas estruturadas. As propriedades dos estímulos e a distribuição das áreas, em cada prancha, obedecem a condições estruturais particulares e a um ritmo espacial indispensável à atribuição de possíveis significados.
Durante a prova, o examinando é impactado por determinadas propriedades das manchas, provocando-lhe uma impressão inicial. Ao mesmo tempo em que fixa o olhar em uma determinada área, busca informações nas áreas vizinhas. Porém, influenciado pela impressão inicial, o examinando elabora hipóteses interpretativas, que serão críticas e decisivas para confirmar ou rejeitar a primeira imagem que lhe veio à mente.
No Rorschach, como na música e na leitura, o que vem depois afeta o que foi percebido antes. Este movimento de varrida do olhar e do espírito, para frente e para trás, se desenvolve no tempo e no espaço, na medida em que o sujeito vê, sente, elabora e, por fim, julga a pertinência da imagem inicial. Além disso, cada interpretação das manchas irá influenciar a construção das imagens seguintes. Formadas a partir da evocação seletiva de experiências individuais, as imagens elaboradas pelo examinando podem corresponder a representações icônicas, conceituais, abstratas ou a impressões sincréticas em que prevalece a ressonância emocional.
A adaptação do ser humano às condições do ambiente social lhe exige, em cada momento de sua vida, que volte sua atenção aos elementos concretos que se impõem à atividade prática. Por isso no Rorschach, o indivíduo seleciona e mobiliza de preferência as imagens do passado que de alguma forma coincidem com as características configuracionais das manchas. Nestas percepções mais concretas e impessoais de reconhecimento, o examinando não representa o passado, mas o utiliza. Este tipo de construção, orientado pelo raciocínio analógico e formal, ainda que seja mais freqüente em um protocolo, não é o mais significativo e revelador da dinâmica de personalidade, peculiar a cada indivíduo. Neste sentido, serão mais significativas as imagens despertadas pela sensibilidade afetiva, que impele o examinando para uma viagem ao interior de si mesmo.
Os diferentes matizes de luminosidade, as cores puras, a natureza compacta ou dispersa dos estímulos do Rorschach são qualidades perceptuais também presentes em nossa experiência com o mundo real, mas que foram distanciadas da consciência como sinalizações inúteis para a intervenção prática ambiente. Entretanto, permanecem fixadas como tela de fundo em nossa memória e em nosso corpo. No material do Rorschach, quando estas propriedades perceptuais se apresentam desligadas de qualquer conteúdo formal, elas facilitam o ressurgimento de imagens do passado, ainda intactas, constituindo o cenário de nossas emoções mais profundas. Estas imagens podem surgir como impressões emocionais sincréticas, interferindo na elaboração de uma resposta, ou podem estimular a imaginação, facilitando a produção de respostas criativas e originais.
Estas diferentes imagens, encontradas em um protocolo de Rorschach, refletem o modo pessoal com que o indivíduo sente, conhece e atua no ambiente, e que ele deseja comunicar aos demais, mas nem sempre o conseguem. A prova de Rorschach também representa de modo paradigmático esta necessidade de comunicação posto que, durante a prova, o examinando não concebe somente imagens, mas é solicitado a expressá-las verbalmente. Mas aquilo que ele disse haver visto, muitas vezes não dá indicações suficientes para o examinador sobre o modo com que as imagens foram construídas; e nem sequer sobre o significado particular atribuído pelo sujeito no interior do campo semântico mais amplo do rótulo verbal enunciado.
Por isso, durante o inquérito o examinador deverá verificar qual é o dinamismo psicológico que atua predominantemente em cada imagem, classificando a resposta em função dos fatores que foram determinantes para elaboração do sujeito, e não segundo a opinião ou impressão subjetiva do examinador ou de acordo com simples regras empíricas de codificação.
Deste modo, será possível avaliar o grau de aproximação de cada imagem vista anteriormente pelo sujeito em relação àquelas concebidas pela maioria da população normal. Esta verificação interprotocolar não supõe a existência de uma correlação direta e linear entre os modos de representação da experiência individual e a realidade em si mesma dos estímulos externos.
A comparação das experiências não implica em sua redução a códigos ou padrões fixos e estereotipados. O Rorschach não é um psicoteste, mas se é utilizado como instrumento científico, deverá seguir os procedimentos experimentais e as diretrizes conceituais estabelecidas por um modelo teórico. A interpretação dos dados de Rorschach unicamente embasada na experiência empírica, com atribuição de significados inferidos pela generalização indutiva (tal como feito na clínica e na nosologia psiquiátrica atual), apenas terá alguma utilidade se os dados obtidos puderem ser analisados mediante concepções teóricas sobre os processos psíquicos implicados nas respostas. Caso contrário, teremos uma espécie de livro de receitas do tipo: se um número significativo de examinandos com distúrbio X, forneceu um determinado fator Y no Rorschach, então todos os indivíduos que apresentam Y durante a prova serão considerados portadores do distúrbio X. O que seria uma generalização arbitrária, posto que não está embasada em uma proposição teórica de caráter hipotético dedutivo, capaz de explicar o surgimento do fator Y.
Por outro lado, a interpretação intuitiva abusiva dos conteúdos, será ainda muito mais perigosa e arbitrária. De modo semelhante, quando a interpretação é embasada em uma teoria demasiadamente ampla, que tudo pretende explicar, não permitindo refutação empírica por ser facilmente imune, a interpretação do psicograma será redundante, devido à ótica teórica que ocorre desde a seleção dos sinais significativos. Ainda que o exame qualitativo interprotocolar dos fatores do Rorschach sejam indispensáveis para o conhecimento da dinâmica de personalidade peculiar a cada examinando, a individualidade não escapa dos limites da plasticidade psíquica, biológica e cultural.
A sistematização e interpretação dos dados da prova de Rorschach segundo um modelo teórico de personalidade, permite a elaboração de paradigmas experimentais para o estudo da dinâmica psíquica normal e patológica. Neste sentido, o Rorschach pode ser considerado como um instrumento particularmente sensível para o estudo psicológico do comportamento humano.
Considerações Finais
A análise dos processos mobilizados durante a prova de Rorschach e do modo como se articulam na configuração singular de cada psicograma, somente será cientificamente válida se for apoiada em um modelo teórico cujas proposições permitam verificação empírica.
Este procedimento poderá ampliar com segurança os estudos experimentais e o aperfeiçoamento de técnicas complementares.
A preocupação de Anibal Silveira em formalizar os conceitos teóricos sobre os fenômenos psíquicos implicados nas respostas de Rorschach, também está presente nos trabalhos de Schachtel e de Irene Orlando. E, mais recentemente, esse meu interesse é compartilhado por Etel Kacero, cujo referencial teórico é distinto daquele que adotamos, porém não incompatível. O mesmo ocorre com os trabalhos de Fernando Silberstein, quem nos propõe um complemento técnico original e fecundo para o estudo da função discursiva dos determinantes do Rorschach mediante a análise semiótica dos relatos fornecidos pelos examinandos durante a prova de Rorschach.
Esta pluralidade coerente de enfoques teóricos provém da própria riqueza do instrumento concebido por H.Rorschach, que não deve ser considerado como mero teste psicológico; e, ainda que não seja propriamente um método, o Rorschach nos dá um paradigma experimental para os diferentes campos de conhecimento que se ocupam da análise do comportamento segundo modelos diversos do psiquismo humano (antropológico, social, educacional, psicológico).
Concordamos com Weiner sobre a necessidade de trabalhar em conjunto, sem descartar a importância das interpretações embasadas em modelos teóricos igualmente rigorosos mas diversos daqueles que adotamos. Mas seria difícil aceitarmos sua concepção do Rorschach como “um processo de reunião de informação que transcende as orientações teóricas” (Weiner, p. 55). E o autor prossegue: “A tradução desta informação acerca de percepções e associações a precisas descrições de funcionamento da personalidade, não está atada a, nem depende de, nenhuma orientação teórica em particular" (Ibid.).
Poderíamos concordar, se com isso Weiner pretendesse mostrar que toda orientação teórica é válida para o uso do Rorschach, por revelar aspectos diversos, e até por vezes comuns a teorias afins sobre os processos psíquicos. Mas isso não fica muito claro em seu texto. A idéia de um conhecimento concreto e factual que dispense qualquer concepção teórica, ou que transcenda, já não é mais aceita nem pelos behavioristas. No Rorschach, a própria reunião de dados e o modo com que eles são articulados, para em seguida ser interpretados, depende da concepção teórica utilizada.
Aceito que a discussão dos conceitos chaves utilizados para a interpretação dos fatores do Rorschach poderiam ser úteis a todos nós. A pluralidade de enfoques teóricos enriquece nosso conhecimento, enquanto que a redução pragmática a um único código, apenas nos dá uma falsa noção de objetividade.
Bibliografia:
Coelho, L. (org). Rorschach Clínico: Manual Básico. Terceira Margem, editora ditaria, São Paulo, 2000.
Kacero, E. y Álvares, N. Lãs transformaciones Del texto Rorschach con los aportes de la técnica del calcado. en Psicodiagnosticar, vol. 4, año 4, Rosario, 1994.
Passalacqua, A. Los fenómenos especiales en Rorschach. Centro Editores Argentinos, Buenos Aires, 1988.
Silveira, A. Prova de Rorschach: elaboração do Psicograma. Edbras, São Paulo, 1985.
Weiner, I. B. Perspectivas internacionales sobre el método Rorschach Inkblok. en: Revista de la Asociación Latinoamericana de Rorschach, nº 5, setiembre 1998, Buenos Aires.
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