Home

|

Contato

| (11)

5083-8271   



E-mail 

  

Senha 

  

Esqueceu sua senha?      

Página Inicial > Quem Somos > Escola Brasileira de Rorschach

  • Escola Brasileira de Rorschach


Baseada no modelo teórico de dinâmica psíquica elaborado por Silveira que envolve atividade cerebral e experiência social e nas contribuições atuais das Ciências Cognitivistas procurarei expor minhas idéias e questões sobre a natureza dos processos psíquicos mobilizados pela prova de Rorschach.

Nesta exposição focalizo três tópicos principais:

  1. Imagens mentais e imagens do Rorschach.
  2. Rorschach como paradigma para o exame dos processos mentais.
  3. Enunciado verbal e inquérito.

1. IMAGENS MENTAIS E IMAGENS RORSCHACH

Os diferentes modelos cognitivistas de imagens mentais distinguem-se apenas pela ênfase que colocam em um determinado nível de processamento das representações psíquicas. Assim, os modelos perceptuais postulam a imagem como resultante da ativação das mesmas estruturas de organização envolvidas na percepção (NEISSER 1972; KOSSLYN, 1990; SHEPARD, 1975, 1990). Os modelos cognitivos consideram a imagem como construção complexa onde participam o pensamento e a memória (BARTLETT, 1932, 1950; MINSKY e SCHANCK, 1975; WEISBERG, 1980). Os modelos semióticos valorizam na imagem o papel de codificação e expressão do real (PIAGET, 1966; DENIS, 1989; ROSCH, 1976; HOFFMANN, 1983).

Raras são as pesquisas cognitivistas sobre imagem mental que levam em conta os processos emocionais que intervêm em sua construção e apenas focalizam um dos níveis do processamento das imagens.

O modelo sistêmico de Silveira (1966) integra as diferentes funções psíquicas ? afetivas, conativas, cognitivas ? que atuam no processamento das experiências. Distingue ainda os diferentes níveis de construção das imagens: o nível perceptual, em que se estabelece a imagem enquanto representação de ordem sintética e mais próxima do estímulo; o nível de elaboração, onde intervêm de modo mais ativo as concepções individuais, a memória e a emoção, e, o nível da codificação e fixação da imagem enquanto signo passível de comunicação. Este processo contínuo não ocorre de modo linear mas nele intervem feed-backs que permitem as transformações, articulações e inovações das experiências pessoais.

Todos os modelos que acabo de referir consideram a percepção como um processo ativo de inferências onde as representações mentais são mobilizadas em função de ?indícios? externos selecionados ativamente através dos sentidos. A percepção é atualmente concebida em termos de ?hipóteses? formuladas a partir de dados sensoriais, mas que vão além dos dados imediatos da consciência.

Consideramos na percepção a seleção de estímulos significativos extraídos do ambiente em um determinado contexto situacional: proporção, tamanho, densidade estrutural, textura, angularidade, distribuição e equilíbrio espacial, luminosidade, cor, pregnância formal. Estes estímulos influenciam e são influenciados pelos esquemas mentais flexíveis e evolutivos que compõem o ?Saber Organizado? de cada ser humano. Estes esquemas mentais organizam-se como idéias, nexos afetivos, imagens e proposições abstratas, podendo ser mobilizados de modo intencional e local ou ativados espontaneamente à consciência para o estabelecimento de uma hipótese perceptual. Em cada hipótese concorrem os processos afetivos-emocionais, os motores-conativos e os cognitivos, porém em cada caso, um destes processos prevalece sobre os demais.

No psiquismo os ?eventos? nunca são armazenados em si mesmos. Não existem ?imagens na cabeça? o que ocorre são ?representações? destes eventos e dos elementos que deles destacamos como significativos, para serem fixados e disponíveis para evocações e reconstruções ulteriores.

Deste modo, a percepção e a imagem são fenômenos estreitamente ligados, mas independentes.

2. RORSCHACH COMO PARADIGMA

Mas no caso das estruturas das manchas de Rorschach, de que modo os ?indícios? utilizados para construção de imagens são ?lidos? pelo examinando, a partir de seus próprios esquemas mentais?

A sistematização e a interpretação dos dados da prova de Rorschach permitem esclarecer esta questão. E, é neste sentido que o Psicodiagnóstico pode ser útil para a elaboração de paradigmas experimentais sobre os processos psíquicos mobilizados na construção das diferentes imagens. Não apenas imagens perceptuais, codificadas e descritas verbalmente, mas também construções subjetivas que as presidem e que podem ser detectadas através do exame dos processos psíquicos em marcha. Deste modo considero o Rorschach como instrumento particularmente sensível para o estudo da atividade psíquica em um espaço criado a partir das manchas com qualidade perceptuais distintas e no tempo transcorrido para a construção e verbalização das imagens (Coelho, 2000 e1980).

Diante dos estímulos do Rorschach o examinando busca um significado. Não apenas porque lhe foi solicitado pela instrução da prova, mas porque em todo ser humano existe este impulso diante do desconhecido: ?effort after meaning?, segundo a expressão de Bartlett. Esta atribuição de significados codificados em termos de imagens icônicas mas também conceituais e até sincréticas, faz-se a partir da evocação de experiências que constituem o ?conhecimento do mundo? adquirido pelo examinando e que são selecionadas e testadas em função dos indícios perceptuais que se lhe apresenta. As hipóteses influenciam, ao mesmo tempo, a constituição de um ?campo perceptivo? e a elaboração da imagem atual. O material perceptual bruto oferecido nas manchas de Rorschach isola os fatores fixos de um contexto significativo ou de um quadro de referência o que produz a espécie da ambigüidade. Na pintura impressionista ou cubista o uso isolado de alguns indícios da realidade, produz a impressão de instabilidade, na realidade, visual muitas vezes seguida por um sentimento de insegurança tal como ocorre no Rorschach.

É o interesse e a atenção que permite a seleção de um aspecto do sistema que sobressai do contexto inicial, operando uma transformação na espécie visual.

As imagens do Rorschach são mais ou menos delimitadas em uma região espacial, mas cada uma delas penetra na percepção da seguinte. Ao fixar o olhar em uma determinada área da mancha, o examinando explora as áreas vizinhas buscando informações.

Ao mesmo tempo que retém a impressão inicial, o examinando formula hipóteses antecipatórias que poderão se revelar criticamente importantes para confirmar ou rejeitar a primeira imagem que lhe veio à mente. No Rorschach, como na música e na leitura, o que vem depois afeta o que percebemos antes. Este movimento de ?varredura? do olhar e do espírito, para frente e para traz, transcorre no tempo e no espaço, à medida que o examinando vê, sente, elabora e enfim julga a pertinência da imagem, por ele selecionada. E esta percepção irá influenciar a percepção das imagens que serão a seguir processadas.

O exame destes processos atuantes durante toda a prova de Rorschach permitirá a distinção de reações afetivas, elaborações cognitivas, registros motores que se organizam de um modo particular caracterizando dinamismo psicológicos individuais, mas que transcendem no tempo e cuja continuidade é garantida pela repercussão emocional.

Entretanto, este exame sistemático apenas poderá ser efetuado a partir de concepções precisas sobre a natureza dos processos psíquicos, isto é, em função de um modelo teórico que permita verificações empíricas. Além disto, o examinador deve ser capaz de ?reconhecer? a imagem percebida pelo sujeito de modo a poder codificá-la de acordo com os fatores que determinaram a resposta do examinando, e não a do examinador ou apenas em função dos esquemas teóricos que adota. Deste modo poderá avaliar o grau de aproximação entre cada imagem fornecida pelo examinando e as imagens concebidas pela maioria da população em um dado campo perceptual. Esta avaliação interprotocolar não supõe a existência de uma correlação direta e linear entre modos de representação da experiência e a realidade em si, dos estímulos externos. O confronto de experiências não pressupõe a redução em códigos com padrões fixos e estereotipados. O Rorschach não é um psicoteste, mas um instrumento científico que deverá ser exercido segundo as diretrizes conceituais ligados á um modelo teórico. Por outro lado, ainda mais arbitrária e perigosa seria a decifração intuitiva dos conteúdos com o objetivo de se desvendar uma realidade profunda.

Se assim fosse, teríamos no Rorschach apenas imagens idiossincráticas, projeções individuais e incomunicáveis, ou, por outro lado, apenas descrições dos estímulos ou ainda, imagens concretas baseadas exclusivamente em configurações familiares. E, é neste sentido que se torna possível, em um protocolo de Rorschach, distinguir, por um lado as imagens que resultam de uma comparação indutiva, analógica, e por outro, as imagens elaboradas a partir de inferências, onde o significado é deduzido principalmente em função do conhecimento que o individuo possui do mundo e que o orienta no confronto com situações novas.

Deste modo, as imagens são elaboradas ativamente pelo sujeito em função daquilo que ele sente, conhece e habitualmente seleciona em suas experiências, e que ele deseja, mas nem sempre consegue comunicar aos demais.

Chegamos assim, ao terceiro tópico a ser discutido: o fato do examinando não apenas construir imagens no Rorschach, mas também de verbalizá-las.

CONTEXTO SITUACIONAL

Características físicas e estruturais das diferentes manchas. Mas também os próprios estímulos presentes no ambiente onde transcorrerá a prova, poderão intervir no processo de construção das imagens, sobretudo em indivíduos com dificuldade de fixação da atenção. Conforme observamos em psicóticos, e que de modo experimental SYDNEY SEGAL (1972) observou em indivíduos normais solicitados a criarem imagens mentais sobre um objeto ou cena, e submetidos a sistemas visuais subliminares. O autor verificou que grande parte destes indivíduos incluía em suas imagens alguns aspectos figurativos do estímulo destes sistemas. No Rorschach, a própria apresentação das manchas atenua, mas não anula esta interferência.

O contexto físico e psicológico constituem marcadores situacionais ativados com a imagem evocada pelo sujeito a partir das manchas, e que, portanto não podem ser ignorados pelo examinador na fase de interpretação dos dados do psicograma. Registramos o papel do contexto, anotando as reações para-verbais dos sujeitos e os mecanismos que acompanharam a elaboração das respostas.

3. O ENUNCIADO VERBAL E O INQUÉRITO

Aquilo que o individuo diz ter visto não fornece indicações suficientes para saber-se efetivamente como ele viu e nem mesmo expressa o significado particular atribuído pelo sujeito no interior do campo semântico mais amplo do conceito verbal formulado.

Já desde os experimentos de Bartlett coloca-se a questão da inexatidão das descrições verbais das imagens produzidas pelos sujeitos: eles tinham dificuldade em expressar verbalmente aquilo que percebiam subjetivamente. Conclui o autor que a imagem é menos sujeita à categorização verbal, exatamente por ela corresponder a uma construção mais individual do psiquismo humano. Palavras e imagens atuam como signos que expressam uma noção sobre algo que não está visível ao observador. As palavras possuem a vantagem evidente de serem sociais constituindo um modo mais direto de comunicação. Mas, ao descrever uma imagem o sujeito reduz suas qualidades específicas expressando apenas um conceito geral. Vemos muito mais do que aquilo que verbalizamos. Tal como ocorre ao contarmos a alguém um sonho, na verbalização da imagem interfere a seletividade dos termos descritivos, transformando-se ou reduzindo-se a construção subjetiva inicial. Ao comunicar suas imagens o sujeito recorre a palavras cujos referentes são mais facilmente visualizados, isto é, aos substantivos. Em seguida ele completa sua descrição por elementos de significação conferidos principalmente pelos adjetivos e advérbios. Se na descrição da imagem figurativa o valor dos substantivos é relevante, nas imagens ligadas a scripts (ou cenas), o verbo reduz a especificidade do substantivo.

Por outro lado, o conteúdo fenomênico da imagem não constitui necessariamente a manifestação de um saber ou de um querer inconsciente, que deva ser decifrado para que atinja o seu significado ?real?. Ele não constitui um código onde se acoplam significante-significado. Portanto não cabe o critério hermenêutico. Apenas torna-se consciente o resultado dos processos mentais. Por não se tratar de um processo de associação livre mas de construção de imagens, o que se deve privilegiar na análise de um protocolo é o modo com que o indivíduo estrutura suas experiências.

Mas então, como interpretar o conteúdo das respostas aos estímulos do Rorschach? Cabe ainda lembrar que a estruturação das experiências é feita através da codificação em signos, e, sobretudo de signos verbais. E, o conteúdo destes signos é necessariamente social. As experiências vividas no passado, as atuais, as aspirações e projetos futuros assumem um significado individual, mas integram-se em sistemas de referência e em concepções advindas da existência coletiva.

Por isto é preciso distinguir no conteúdo o seu caracter social, explicito, daquele individual e latente. Apenas o conteúdo explícito permite a avaliação estatística, enquanto categorias ligadas à faixas de interesse. Diante da possibilidade de criar diferentes imagens em manchas de tinta, o examinando sente-se estimulado por uma espécie de revelação: a da variedade de formas de representação do mundo e das próprias experiências. A inclinação afetiva por campos específicos da experiência humana mobiliza e dirige a atenção do examinando para determinadas áreas e propriedades dos estímulos.

Através das categorias em que se distribuem os conteúdos explícitos é possível distinguir-se o mapeamento de padrões específicos utilizados pelo examinando, os quadros de referencia, de ordem mais complexa espaço-temporal dando lugar a cenas, ou ainda, ações desenroladas segundo um script narrativo.

Por outro lado, o estudo do conteúdo latente da imagem é mais difícil e delicado. Ele implica, em primeiro lugar, no exame do processo psíquico associado à produção da imagem ? os determinantes, modalidades, mecanismos de formação, expressões para-verbais. Em seguida deve-se considerar a conotação particular que o sujeito atribui a este conteúdo. Porém, a interpretação psicodiagnóstica deste tipo de análise apenas é licita a posteriori, já baseada no conhecimento direto do examinando e portanto não em condição de análise às cegas, procedimento que deverá orientar a redação do relatório dos resultados.

Além disto, este tipo de interpretação do conteúdo latente aplica-se apenas a conteúdos dinâmicos, decorrentes de intensa ressonância afetiva provocada por certas qualidades de estímulo resultando em imagens sincréticas ou em imagens onde o probando expressa fantasias irracionais e julgamentos de valor. Estas ressalvas à análise simbólica deve-se ao fato do conteúdo das imagens não representa entidades transcendentais passíveis de exegese doutrinária.

Se para a classificação e análise das imagens do Rorschach o examinador parte do enunciado verbal que lhe é comunicado, isto não implica que a simples notação do conteúdo seja suficiente para a análise dos processos psíquicos envolvidos.

Para a utilização do Rorschach não apenas como instrumento clinico, mas também como instrumento de pesquisa experimental, esta prova deve ser aplicado segundo um procedimento semelhante àquele adotado em investigações cognitivistas sobre os processos mentais e formas de representação. Daí a importância que a escola brasileira atribui à fase do inquérito, onde o questionamento pertinente e controlado não se confunde com o direcionamento sugestivo de questões mal formuladas.

Profa. Dra. Lucia Maria Salvia Coelho
Psicóloga; Doutora em Ciências Médicas; Mestre em Filosofia das Ciências; Especialista em Rorschach, Presidente da Sociedade Rorschach de São Paulo


Fevereiro/2003

 


Newsletter

Cadastre-se e receba nossas notícias e a agenda de cursos.

R. Remanso, 98 V. Mariana CEP.: 04013-010 São Paulo - SP/ Brasil

Direitos autorais sobre a reprodução de conteúdo desse site da Sociedade Rorschach de São Paulo.
É proibida a reprodução do conteúdo das páginas do site da Sociedade Rorschach de São Paulo em qualquer modo de comunicação,
eletrônico ou impresso, sem a autorização da diretoria. Lei nº 9610, de 19/12/1998 do Governo Federal Brasileiro.
Todos os direitos reservados - 2008 - Desenvolvido por DGroup.